Feliz Dia das Mães para quem tem mãe!

Minha mãe – Maria, 53 anos – recebeu SMS no celular: “Sua mãe merece o melhor, promoção Dia das Mães Marisa”.

Aí ela leu, pensou e falou: ” que que eu posso comprar pra minha falecida mãe na Marisa?” – riu e completou: “Sabem nem o que tão fazendo”.

Tudo que passou pela minha cabeça foi uma cena d’A Família Adams, minha mãe de mortícia entregando presentes nos túmulos da família.

Sobre como ofender as pessoas.

Dia 30 de Abril foi aniversário de uma amiga minha e eu resolvi lembrar os coleguinhas – da faculdade, só os mais próximos dela e de mim.

Mandei mensagem inbox no facebook para umas quatro a cinco pessoas e as respostas me fizeram crer que acabei aborrecendo-os mais do que ‘ajudando’.

De cinco mensagens: “Tá lembrando que hoje é aniversário da Camila?” ou “Hoje é aniversário da C. F.”; obtive:

-duas respostas: “Nossa, claro que lembrei, lembrei mês passado já, comprei um presente e liguei 15 vezes pra ela só hoje!”.

-uma não resposta. Estou no vácuo, até hoje esperando a pessoa iniciar um novo papo.

-uma resposta: “Valeu!”

-uma resposta: “Valeu, eu tinha esquecido!”

Nunca passou pela minha cabeça que eu pudesse ofender alguém mandando um lembrete! Mas aparentemente as pessoas não gostam de esquecer aniversários alheios e muito menos de ser lembradas deles. Quem era eu pra pensar que eles não lembraram?

Não era o caso. Ninguém me devia satisfações sobre a data.Mas, aparentemente, a única pessoa que se recordou disso foi a do: “Valeu!”.

 

Quem não tem dente nunca vai segurar a língua.

Nota

Era uma vez uma cidade isolada, que ficava enfiada entre morros no interior de SP. Lá, tudo era comentado, nada escapava.

Dona Rita era uma mulher jovem quando começou nessa vida de comentar. Na verdade verdadeira ela não queria saber a verdade, queria comentar e de vez em quando acertar uma cutucada em alguém.  No mesmo dia em que uma casa pegava fogo, todos já sabiam que o que causou o incêndio fora o notebook em cima da cama, e sabiam também que não fora o notebook e sim o microondas, e também que fora um louco que ateara fogo – sempre tinha uma versão mais assustadora.

Quando nada acontecia de tão grandioso como um acidente, uma traição de marido ou um incêndio, dona Rita comentava a roupa de fulana, o jeitinho de andar do sicrano e assim ia. Às vezes, até coisas da novela ela usava para destilar seu veneninho, misturando realidade e ficção, o que não podia era passar dia sobre dia sem dona Rita dar uma cutucada em alguém.

Falava até sozinha, de tanto que falava. E viveu bem até 98 anos. E ninguém na cidade odiava ela.

sem dentes

Quem me contou essa história disse que o segredo de dona Rita era que desde novinha, quando alguém queria tomar satisfações, ela botava na cara um sorriso bem sofrido e mostrava que lhe faltava um dente. Quando morreu, sem gostar de escovar a boca suja, lhe sobravam alguns poucos dentes quebrados e podres na boca, que ela continuava mostrando no sorrisinho amargo quando alguém se ofendia com suas mal falações. 

Hey, seu “botocudo”!

Não fosse o apelido carinhoso que meu pai deu ao meu irmão, eu jamais saberia que, provavelmente, os índios Botocudos (ou aimorés) carregam traços de DNA polinésio.

Meu pai é cheio de colocar apelidos. Me chama de Franciele, de Francisca, Filisbina (preferencias pela letra F? – não sei). Para meu irmão ele tem outros, dentre eles, Botocudo. Eu odiava esse apelido porque imaginava que era algo do tipo: seu boca-suja, ou, seu pançudo. Achava que era algo pejorativo.

Qual não foi minha surpresa ao ler o livro que narra a vida de Assis Chateaubriand? (Chatô – O Rei do Brasil – Companhia das Letras, 736 páginas). Botocudo nada mais é – ou foi – que uma tribo indígena brasileira também conhecida por Aimorés.

Adoro quando conheço uma palavra nova, quando descubro seu significado passo a ouvi-la (ou notá-la) mais frequentemente. Hoje vem meu pai: olha uma notícia sobre os Botocudos – que eram os mais altos e grandes indígenas brasileiros (agora entendo porque papai chamava meu irmão de Botocudo).

É uma das poucas etnias não-tupi, e neste mês, foi publicado um estudo científico coordenado pelo pesquisador Sérgio Pena da Universidade Federal de Minas Gerais, apontou que há traços de DNA polinésio em material genético dos índios brasileiros; e que, provavelmente esse traço genético tenha aparecido após a miscigenação entre os Botocudos e escravas da ilha de Madagascar trazidas pra cá no século 19.

Fala sério… não fosse pelo apelidinho carinhoso que meu pai botou no meu irmão mais velho… quais as chances de uma notícia como essa me chamar a atenção?

Ademais, esses sempre foram os indígenas que mais me chamavam atenção, com esses adornos gigantes em bocas e orelhas. indios-botocudos-tapuias-e-aimores

A notícia original você encontra AQUI!

Me esforcei tanto pra chegar aqui.

Eu sempre fui chamada de cínica pela minha família, isso nunca me incomodou – até que eu descobri o que significava.

Ser cínica só é bom se você for irônica e metida a engraçadona. Caso contrário você vai parecer presunçosa (e porquê não?)

A bem da verdade, as pessoas costumam julgar os cínicos e irônicos como pessoas amargas, ácidas. Eu posso estar apenas me defendendo, mas, o que tem de mal em ser ácido?
É a forma que encontrei de falar dos meus problemas. Eu acho honesto você rir e até mesmo ridicularizar o que você mesmo está sentindo. Injusto é mentir, fingir que sente o que não sente pra parecer bonzinho. Eu gosto de pessoas ácidas, acho-as inteligentes, pois sabem fazer as melhores piadas…e bem por isso tento copiá-las.

E ademais, apenas para terminar, o “Cinismo” não é um ‘estado de espírito’ de pessoas ’emburradas’ – como alguns podem pensar. O Cinismo foi uma corrente filosófica que pregava o desapego aos bens materiais, erroneamente interpretada virou sinônimo de pessoas alheias aos sentimentos de outros. Na verdade, o que buscamos é ficar alheios aos nossos próprios sentimentos; não porque somos frios, mas, sim, porque somos sensíveis demais.

O último refúgio do oprimido é a ironia, e nenhum tirano, por mais violento que seja, escapa a ela. O tirano pode evitar uma fotografia, não pode impedir uma caricatura. A mordaça aumenta a mordacidade.

Millôr Fernandes

Link

“P.S.: eu te amo: Dedicatórias e cartas encontradas em livros revelam histórias emocionantes que mexem com corações e mentes de donos de sebos do Rio”

Essa matéria da Agência OGLOBO me inspirou a pensar sobre o assunto. Que mistério é esse que nos faz guardar os sentimentos em páginas de diários e livros?

Não sei, mas suspeito que tenhamos uma vontade grande de que a nossa própria história venha a inspirar outras pessoas.

Eu não presenteio ninguém com um livro sem escrever uma dedicatória. Quero que fique grudado ali a minha intenção, meu sentimento. Se o presenteado se perder ou até mesmo se desfizer do livro tudo bem. Alguém dará valor (talvez) àquelas palavras.

Um primo meu não empresta nenhum número da sua coleção de livros porque em todos eles, na capa ou contracapa, escreve impressões do dia/época em que comprou o livro, o que pensou…qualquer coisa que queira escrever e deixar registrado.

Todo comunicador deveria ter essa vontade de saber das histórias alheias – que alguns chamam enxerimento – e que eu nomeio ‘Curiosidade premiada’ (que também é título de livro infantil), só tendo paixão pelas histórias alheias você pode descobrir histórias como as descritas nessa matéria – que valem a pena serem contadas.